Equipas falhadas: #9 - BAR & Honda: Earth Nightmare
- Bandeira Amarela

- 14 de set. de 2019
- 4 min de leitura

A segunda encarnação da Honda enquanto equipa de Fórmula 1 acabou por ter um final trágico (para o fabricante japonês) mas é uma história que deve ser contada em dois actos.
O primeiro acto começa já perto do final da Era do Tabaco com a compra da histórica Tyrrell pela British American Tobacco. A BAT, juntamente com o empresário e amigo de Jacques Villeneuve, Craig Pollock e com Adrian Reynard, investiu, fez uma nova fábrica e transformou a Tyrrell na BAR – British American Racing (que algumas fontes ainda hoje referem como sendo “Bandeira Amarela Racing”, o que é errado, podemos desde já garantir).

Com o chassis construído pela Reynard, dinheiro infinito do tabaco, o campeão do mundo de 1997 nas suas fileiras e motores de fábrica Honda a partir da segunda época, a BAR estreou-se em 1999 com um objectivo ambicioso – ganhar uma corrida logo na época de estreia. Não correu bem assim e a equipa acabou por fazer uns estrondosos… zero pontos no ano de estreia e o último lugar no Mundial de Construtores. Diz-se que apesar de dispor de uma verba capaz de manter a Minardi por várias temporadas que a BAR, na sua temporada inicial, já teria rebentado com esse valor a meio da temporada…Curiosa também a polémica do início da temporada com a BAR a apresentar uma decoração totalmente diferente em cada carro - um deles com as cores da 555 e outro da Lucky Strike, duas das marcas pertencentes ao universo BAT. A FIA não permitiu que uma equipa alinhasse com dois carros diferentes e a solução encontrada foi dividir o carro a meio para cada decoração separadas pelo célebre fecho eclair.

As coisas foram melhorando com a entrada da Honda e na segunda temporada a BAR termina a época no quinto lugar. Pouco, ainda assim, para quem aspirava a ganhar corridas logo no ano de estreia. A verdade, é que no período BAR, entre 1999 e 2005, a equipa não conseguiria ganhar uma única corrida apesar de, recorde-se, pertencer a uma das maiores tabaqueiras mundiais (leia-se, dinheiro ilimitado), ter o apoio de um construtor histórico de motores como a Honda, ter um ex-campeão do mundo durante a maior parte da sua existência (ao qual se viria a juntar mais tarde um futuro campeão, Jenson Button) e ainda um experiente fabricante de chassis como era a Reynerad.
A equipa apenas esteve próxima do sucesso em 2004, onde conseguiu ser segundo classificada no mundial, atrás apenas da Ferrari e com presença no pódio em 11 das 18 corridas, quase sempre por Jenson Button.

Com o aproximar de uma proibição definitiva à publicidade ao tabaco, a BAT nunca conseguiu cumprir a sua “missão ganhar já” e aos poucos foi vendendo a equipa à Honda que acabou por assumir o controlo e dar o nome à equipa – era agora Honda Racing F1 Team. A BAR saía de cena com a “honra” de se ter tornado no oitavo construtor a disputar mais corridas sem conseguir alcançar uma única vitória.
É aqui que entramos no segundo acto desta história. Em 2006 a Honda continua o trabalho da BAR. Mantendo o patrocínio da BAT, as mudanças na equipa foram praticamente imperceptíveis. A mais significativa foi a saída de Takuma Sato para dar lugar a Rubens Barrichello. A dupla Button/Barrichello manteve-se durante os três anos que duraria a aventura Honda F1 Team.
Depois do retrocesso em 2005 com a BAR a terminar em sexto no Mundial e com três desqualificações durante a época e a equipa banida durante dois grandes prémios, a “nova” Honda conseguiu melhorar e obter um quarto lugar entre os construtores e, sobretudo, conseguiu aquela que seria a primeira e única vitória desde o arranque do projecto BAR/Honda.

Em 2007 e 2008, com a saída da BAT, a Honda passou a correr com a célebre (não necessariamente pelas melhores razões…) decoração do “Earth Dream” e sem ostentar qualquer publicidade nos seus carros enquanto, algo inédito desde os anos 60. Em paralelo, a equipa afundava-se na tabela classificativa com um oitavo e um nono lugar à geral no fim de 2007 e 2008. A época de 2007 foi má ao ponto de até à penúltima corrida da época a Honda estar atrás da Super Aguri, a equipa satélite que apoiou para dar um lugar a Takuma Sato.

No final de 2008, com o rebentar da crise mundial, a Honda decide abandonar a Fórmula 1 e terminar o investimento de 300 milhões de dólares anual. Após 10 temporadas nas mãos da BAT e depois da Honda, uma equipa que teve fundos ilimitados, apoio de fábrica e campeões do Mundo ao volante abandona com uma magra vitória, três desqualificações e duas corridas de suspensão no seu currículo.
No entanto, a história não terminou. O culminar do falhanço desde projecto surgiria no epílogo.
No início daquela que viria a ser a sua última época, a Honda foi buscar Ross Brawn para Director Técnico. Com o falhanço do prejecto de 2008, Brawn e a sua equipa começam já a trabalhar no carro de 2009 a meio da época. Com o abandono da Honda, Brawn fica com um projecto terminado nas mãos… mas sem equipa. Ross Bawn e Nick Fry lideraram um “management buy-out” que lhes permitiu continuar com a equipa. Colocaram um motor Mercedes no chassis desenhado para receber motores Honda e… foram campeões do Mundo. Pilotos e equipas. Depois de centenas de milhões de euros investidos, a Honda entregou de mão-beijada um carro campeão do Mundo do qual retirou absolutamente nenhum proveito, culminando assim de forma estrondosa este tremendo falhanço.

TL;DR: dinheiro infinito de uma das maiores tabaqueiras, projectistas experientes, um campeão do Mundo, apoio de um construtor habituado a ganhar (Honda), zero vitórias. Honda continua com o projecto após saída da BAT apenas para ganhar uma corrida antes de se afundar na grelha. Criou um carro campeão do Mundo, abandonou o Mundial e entregou-o quase de borla para outros colherem o sucesso
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