Equipas falhadas #2 - Andrea Moda: uma pedra no sapato
- Bandeira Amarela

- 4 de nov. de 2019
- 6 min de leitura
A Andrea Moda figura ainda hoje não só como um dos maiores fiascos da história da F1 como é também muito provavelmente o projecto mais embaraçoso de sempre que fez parte do Grande Circo.

Gostamos tanto desta história que foi dos primeiros que abordamos nas redes sociais do Bandeira Amarela mas como nunca é demais relembrar, aqui fica novamente, até porque não podia ficar de fora desta lista.
Em 1991, após o abandono da equipa de F1 pela Coloni, o empresário italiano Andrea Sassetti decide que seria boa ideia juntar aos seus negócios na moda (daí o “Andrea Moda”) a uma equipa de Fórmula 1 e compra os restos da equipa a Enzo Coloni. O carro era basicamente o velhinho e pouco competitivo Coloni C4B agora equipado com um motor Judd V10. Não chocou ninguém que o carro continuasse a ser um dos mais lentos do pelotão. É o que costuma acontecer quando se pega num dos piores carros da época anterior e se coloca a corrê-lo sem alterações de relevo. Sassetti ficou com todo o material e pessoal da Coloni, juntou um conjunto interessante de patrocinadores e estava feita uma equipa de Fórmula 1.

Contudo, o problema maior é que o carro era talvez o menor dos problemas da equipa – o que ajuda a dar uma ideia da dimensão da incompetência que reinava neste projecto. No primeiro Grande Prémio da época, em Kyalami, a equipa foi impedida de participar, apesar de estar presente, por não ter pago o depósito de 100 000$ exigido pela FIA às novas equipas para competir. Sassetti protestou mas lá teve que ceder se não queria ficar de fora do Mundial, Entretanto, novos problemas surgiram com a FIA a decretar também que a Coloni era uma nova equipa e, como tal, não poderia usar o Coloni C4, teria que usar um carro seu. A solução foi comprar à Simtek os projectos do S921, uma encomenda da BMW para um Fórmula 1 que nunca correu... em 1990. Um projecto de um Fórmula 1 com dois anos e nunca testado em pista em princípio não será propriamente um carro ganhador e na verdade não foi. Muito longe disso. Na ronda seguinte, no México, mais problemas. Todo o staff e equipa chegaram a tempo e horas ao circuito Hermanos Rodriguez mas o mesmo não se pode dizer dos carros que estavam ainda a ser construídos e como tal não embarcaram a tempo. Quem não ficou muito satisfeita com a situação foi a FIA, sobretudo depois dos problemas que ocorreram na África do Sul.
A Andrea Moda tinha arrancado a época com Alex Caffi e Enrico Bertaggia ao volante mas a dupla não tardaria a ser despedida por ter criticado abertamente a falta de planeamento da equipa, particularmente pelo que aconteceu no México. Sassetti não gostou e despediu-os a ambos. No Brazil a equipa já se apresentou com Roberto Moreno e Perry McCarthy (esse mesmo, o Black Stig). McCarthy ficaria de fora por não ter obtido a Super Licença a tempo e Moreno falhou a pré-qualificação naquele que foi o primeiro contacto do S921 com a pista. O Stig, quer dizer, McCarthy teve finalmente a super licença necessária na ronda seguinte, em Espanha, mas o carro dele não chegou sequer ao final do pitlane antes de se imobilizar. Moreno não teve muito melhor sorte e falhou a pré-qualificação uma vez mais. Enrico Bertaggia que havia sido despedido pela equipa uns meses antes, reaproxima-se do seu antigo patrão com cerca de 1 milhão de dólares em patrocínios mas a FIA recusou novas mudanças de pilotos devido às aventuras iniciais da equipa argumentando que "apenas duas mudanças de piloto por época eram permitidas" - uma regra que ainda hoje se mantém, salvo motivos de força maior.
Com o dinheiro a escassear na equipa e com Sassetti furioso por ter perdido esta oportunidade de obter mais fundos, McCarthy foi posto num papel completamente secundário e a certo ponto o seu carro era basicamente um carro de reserva para Moreno. Com isto, Andrea Sassetti esperava que McCarthy abandonasse a equipa pelo seu próprio pé e pudesse então reinscrever Bertaggia e o seu milhão - o que não veio a acontecer.
No Mónaco McCarthy não teve vida fácil e arrastou-se em pista durante mais de 17 minutos(!) para completar uma única volta. Obviamente não se pré-qualificou mas eis que entretanto o milagre aconteceu para Roberto Moreno que conseguiu não só passar a pré-qualificação como também se conseguiu qualificar em 26º e último lugar para o GP do Mónaco! Essa corrida seria a única que veria um Andrea Moda à partida na grelha mas o sonho não durou muito e à volta 11 Moreno desistiu com mais uma falha de motor.

Chegamos então ao Canadá e a Andrea Moda continuou fortemente empenhada em construir a lenda: os carros e a equipa chegaram mas os motores não. Alegadamente terão ficado retidos na alfândega... A única solução que a equipa encontrou foi arranjar um motor emprestado à Brabham, que à época também lutava pela sobrevivência, e assim conseguiram fazer alinhar Moreno na pré-qualificação (de onde não passaria). McCarthy viu todo o Grande Prémio da bancada. De volta à Europa, desta vez em França, novo feito obtido: desta vez falharam a corrida porque os camiões que transportavam o material da equipa ficaram retidos num bloqueio devido a protestos dos camionistas franceses. Todas as outras equipas conseguiram chegar a tempo e horas ao circuito.
Entretanto, o bullying sobre McCarthy intensificava-se: em Silverstone foi mandado para a pista com pneus de chuva... em pista seca e na Hungria a equipa apenas permitiu que ele saísse das boxes a 45 segundos do final da sessão, impedindo-o de registar qualquer tempo. Pelo caminho, McCarthy foi excluído do GP da Alemanha por falhar uma pesagem embora já tivesse ficado de fora na pré-qualificação. Roberto Moreno entretanto também não conseguia melhor do que isso nas seguintes corridas. Por esta altura os patrocinadores que se juntaram à equipa no início da época, já tinham partido e Sassetti tinha que financiar inteiramente a Andrea Moda.
À décima-segunda corrida, em Spa-Francorchamps, na Bélgica, a FIA sente necessidade de intervir novamente: a Andrea Moda é avisada que ou fazia uma tentava séria de correr com ambos os seus pilotos ou poderia ser desclassificada. O regulamento em 1992 já obrigava a participação de dois carros por equipa e, na prática, a Andrea Moda só contava com um...

Em Spa pela primeira vez ambos os carros participaram na sessão de qualificação devido à desistência da Brabham, o que tornava desnecessária a pré-qualificação. Sessão essa onde foram, respectivamente, 13% e 22% mais lentos que o homem da pole. Apesar do aviso da FIA, o carro de McCarthy apareceu com a coluna da direcção partida. A informação existente não é clara, a lenda diz que a equipa não só sabia disso como terá sido o próprio Sassetti a ordenar a sabotagem do carro de McCarthy para que ele se despistasse e morresse (como a História infelizmente fez questão de mostrar pouco menos de dois anos depois, é um método que pode ser muito eficaz). Fica difícil de explicar como é que essa falha foi encontrada e corrigida a tempo mas, com tudo o que envolveu esta equipa, não é difícil de acreditar que haja algum fundo de verdade aqui.
Entretanto, a festa estava prestes a acabar e nesse mesmo fim-de-semana, Sassetti foi detido em pleno paddock por forjar facturas de peças e componentes e uma semana depois o Conselho Mundial da FIA baniu a equipa por trazer mau nome à modalidade e não terem sido capazes de gerir a equipa de forma minimamente aproximada aos padrões exigidos pela mesma.

A Andrea Moda ainda se apresentou em Monza para a prova seguinte mas simplesmente foi-lhes negada a entrada no paddock. Ironicamente, acabava assim a história de uma equipa que não apareceu a várias corridas onde podia participar, a ser impedida de participar numa corrida onde desta vez apareceu. Terminando, sem pontos, sem honra nem glória, apenas com uma participação em Grandes Prémios, uma das histórias mais absurdas que a Fórmula 1 já conheceu.
TL, DR: indivíduo com perfil duvidoso decide entrar na Fórmula 1 e compra a equipa mais lenta da época anterior. Inscreve os carros mesmo assim e corre mal. Equipa falha corridas por amadorismo extremo e sem dinheiro para correr com dois carros e dois pilotos sob contrato, acaba a fazer bullying a um deles até que a FIA os obriga a colocar o segundo carro a correr a sério. Dono da equipa preso no paddock em Monza e equipa banida pela FIA por descredibilizar a modalidade.




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